O Espírito do Ateísmo

André Comte-Sponville

2009

Martinsfontes

Eduardo Brandão

Livros

O Garoto Que Queria Ser Deus
O Brasil e os Brasileiros
O Pastor Rebelde
Memória de Uma Agenda
As Raízes de Deus
Dom Juan Por Acaso

Informações do livro

Sinopse

O Espírito do Ateísmo divide-se em três partes – Pode-se Viver Sem Religião? Deus Existe? e Que Espiritualidade Para os Ateus?
Na primeira parte, dentre outras coisas, o autor diz: “Pode-se viver sem religião, mas não sem comunhão, nem sem fidelidade”, isto é, todos nós ocidentais estamos indissociavelmente vinculados aos valores e à comunidade cristãos. (p. 67) Ele chega a dizer que só está separado do Cristianismo “por três dias ... da Sexta-Feira Santa à Páscoa” no domingo. “... grande parte dos Evangelhos continua a valer”. “ ... salvo Deus”. “ ... porque não sou fã de milagres”. (p.65) Depois de referir-se aos diversos episódios e às mensagens de Cristo, ele pergunta: “... seria razoável dar mais importância a esses três dias, que nos separam, do que aos trinta e três anos que precedem, e que  ... nos reúnem?”. (p.66/67) Ele justifica seu apego aos valores cristãos com base em dois princípios: o da fidelidade e o da comunidade. Por outro lado, o excesso de parcimônia de Comte-Sponville pode levar muita gente a pensar que ele não seja ateu. Aliás, alguns religiosos têm utilizado justamente sua moderação para negar a posição dos ateus.
O autor passa naturalmente ao largo dos horrores que os Evangelhos oferecem, ainda que menos numerosos do que as milhares de atrocidades do Velho Testamento. Ora, nesses Evangelhos, no livro dos Romanos por exemplo está escrito: “A mim me pertence a vingança”. (Rm 12.19) Nos livros de Mateus (10.35), João (2.4) e Lucas (14.26) há uma profusão de mensagens contrárias à família. De tal forma que Bertrand Russell enfatizou que a dissolução do laço biológico-familiar em nome da crença foi um dos fatores da intolerância perpetrada ao longo da história, nos milhares de conflitos de natureza religiosa. Esses mesmos Evangelhos têm outras crueldades, como por exemplo quando Mateus (13.49-50) diz que os injustos serão lançados na fornalha acesa e que ali haverá choro e ranger de dentes. Ainda em Mateus (10.34) está dito sobre Jesus: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada”. Além de muitos outros versículos cruéis e obscurantistas, como por exemplo em 1Coríntios (1.19-20): “Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos. ... Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?” Numa pregação servil, indigna do ser humano, Jesus manda que se ofereça a outra face, se a primeira for golpeada; e, contraditoriamente, expulsa com violência os mercadores do templo. 
Comte-Sponville não fala também de outros males do cristianismo pré-reforma protestante, males que subsistem na maior parte do mundo católico, especialmente, o culto à pobreza, à servidão, à resignação e ao mesmo tempo um certo ódio à prosperidade, ao progresso, à ciência. São concepções que só muito ulteriormente vêm se alterando.
O autor não enfatiza muito a crueldade dos cinco séculos de Inquisição, nem os três séculos das Cruzadas, nem a Guerra dos Trinta Anos – entre católicos e protestantes, nem as guerras papais e outros conflitos terríveis, tudo em nome do Deus Cristão e que persiste com o Deus Muçulmano e Outros.
Mas Comte-Sponville se compensa largamente nos textos que se seguem, onde ele desenvolve teses filosóficas que podem abalar até os mais crédulos. Ainda que ele afirme ser impossível provar a existência/inexistência de Deus, armadilha na qual todos parecem cair, ele segue em frente. Diríamos armadilha porque Deus é uma herança daqueles mesmos entes primitivos de cem mil anos atrás, quando o homem tornou-se Homo sapiens sapiens e criou os fetiches, totens, duendes, xamãs ou seus equivalentes, e que vieram sendo promovidos gradativamente a divindades, deuses, e finalmente no Deus único. Como lembra Umberto Eco, “Este homem, para encontrar coragem para esperar a morte, tornou-se forçosamente um animal religioso”. E da mesma forma que o homem saiu das cavernas e chegou ao espaço sideral, suas divindades foram também trazidas aos fóruns mais privilegiados.
Na segunda parte, ao falar das Fraquezas das ‘provas’ de Deus, Comte-Sponville destaca a ‘prova ontológica’ – a ‘prova a priori’. É naturalmente uma prova “que não toma nada da experiência”; a prova nada mais é que a convicção de que Deus existe. (p.78/79) Essa prova “é objeto de fé, não de saber”. (p.80)
Já a ‘prova cosmológica’ – ‘prova a posteriori’ – “parte de um fato da experiência, que é a existência do mundo”, baseada “no princípio da razão suficiente: nada existe ou é verdadeiro sem causa ou sem razão”. (p.81) O ser contingente, o Universo, precisa de um Ser necessário, Deus. “Mas o que nos prova que esse ser seja Deus, quero dizer, um Espírito, um Sujeito, uma Pessoa (ou três)?” (p.83)
O autor continua e diz que este Ser, ao invés de ser um Deus, poderia ser “a Substância de Espinosa, a qual é absolutamente necessária, ... eterna e infinita, mas imanente (seus efeitos estão nela) e desprovida ... de todo e qualquer traço antropomórfico: ela não tem consciência, não tem vontade, não tem amor”. (p.83) Ou seja, é o mesmo Universo Eterno de que fala nosso cosmólogo Mario Novello. Não obstante, “Espinosa a chama de ‘Deus’, mas não é um Bom Deus, é tão somente a Natureza,...”. (p.83).
A ‘prova físico-teológica’ – a posteriori. “Parte-se da observação do mundo; constata-se nele uma ordem, uma complexidade insuperável; conclui-se daí que há uma inteligência ordenadora. É o que se chama hoje de teoria do ‘desenho inteligente’. O mundo seria ... belo demais, harmonioso demais para que possa ser obra do acaso; ... suporia uma inteligência criadora e ordenadora que só pode ser Deus”. (p.86) O autor contrapõe-se falando “das desordens, dos horrores, das disfunções” do mundo. “Em que isso prova que os tumores ou os cataclismos decorram de um desenho inteligente e benevolente?”. (p.87) “a natureza joga dados [é aleatória]: é por isso que ela não é Deus”. “Se o acaso (mutações) cria ordem (pela seleção natural) não há mais necessidade de um Deus para explicar o aparecimento do homem. A natureza basta”. (p.88) Dawkins diz que ao invés de pensarmos num Projetista, é muito mais lógico pensarmos que só estamos aqui porque o arranjo cosmológico aleatoriamente estabelecido permitiu que moléculas pré-biológicas se tornassem biológicas.
Se as ‘Provas’ de Deus são precárias, as ‘Fraquezas’ de sua experiência são ainda maiores, e nem vale a pena falar sobre estas.
Sobre a Explicação Incompreensível de Deus, Comte-Sponville diz: “Crer em Deus ... equivale a querer explicar algo que não compreendemos – o mundo, a vida, a consciência – por meio de outra coisa que compreendemos menos ainda: Deus”. (p.98) “O universo é um mistério suficiente. Para que inventar outro [o Deus]?” “Se o absoluto é inconhecível, o que nos permite pensar que ele é Deus?”. (p.101) “Se não se pode dizer nada de Deus, não se pode tampouco dizer que ele existe, nem que ele é Deus”. “Todos os nomes de Deus são humanos ou antropomórficos, mas um Deus sem nome não seria um Deus. ... O silêncio não faz uma religião”. (p.104)
Sobre o mal, constatamos atrocidades no mundo a todo tempo. Então, “Ou Deus quer eliminar o mal e não pode; ou pode e não quer; ou não pode nem quer; ou quer e pode”. (p.106) Mas essas situações excluem todos os atributos de Deus.
Em Mediocridade do Homem o autor diz: “não tenho uma ideia muito elevada da humanidade em geral, e de mim mesmo em particular, para imaginar que um Deus esteja na origem desta espécie e deste indivíduo”. “Que belo resultado para um ser onipotente!” (p.113) “Como animais produzidos pela natureza, não somos de todo desprovidos de qualidades e méritos. Partimos de tão baixo!. Quem poderia adivinhar, cem mil anos atrás, que aquelas espécies de grandes símios iriam à Lua, gerariam Michelangelo e Mozart, ...?” (p.114)
O Desejo e a ilusão. “uma crença que corresponda ... aos nossos desejos, é de temer que tenha sido inventada para satisfazê-los”. “o que desejamos acima de tudo é, primeiro, não morrer ...; depois, encontrar os seres queridos que perdemos; que a justiça e a paz terminem por triunfar; e ... ser amados”. “Ora, o que diz a religião ...? Que não morreremos, ... que vamos ressuscitar”; (p.118) “... que somos amados com um amor infinito”. “É justamente o que torna a religião suspeita: é bom demais para ser verdade”. (p.118/119) “ter ilusões é tomar seus desejos pela realidade”. “Deus é por demais incompreensível ... para não ser duvidoso; a religião é por demais compreensível ... para não ser suspeita”. (p.122)
O direito de não crer. “A religião é um direito. A irreligião também. Logo, devemos proteger ambas (inclusive uma contra a outra, se necessário) impedindo ambas de se imporem pela força. É o que se chama laicidade, a mais preciosa herança das Luzes”. (p.125)
Na terceira e última parte Comte-Sponville fala sobre a espiritualidade dos ateus. “O que é o espírito? É o poder de pensar ...”. “‘espiritual’ seria sinônimo de ‘mental’, ou de ‘psíquico’. (p.128) “Ser ateu não é negar a existência do absoluto; é negar a sua transcendência, a sua espiritualidade, a sua personalidade – é negar que o absoluto seja Deus”. (p.129) “a natureza existe antes do espírito que a pensa”. “É onde o naturalismo leva ao materialismo”. “O espírito não é causa da natureza. É seu resultado ...”. (p.131) “Como a única espiritualidade socialmente observável, em nossos países, foi durante séculos uma religião (o cristianismo), acabou-se acreditando que “religião” e “espiritualidade” eram sinônimos”. O autor argumenta ainda com a própria condição primeira e absoluta da natureza: “Se tudo é natural, a espiritualidade também é”. (p.132)

(190 páginas, R$.......?)
        

Livros

Carta a Uma Nação Cristã
Deus Não É GRANDE
Tratado de Ateologia
Deus, um Delírio
Por Que Não Sou Cristão
Aprender a Viver
O Espírito do Ateísmo
Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas
O Príncipe
Assim Falou Zaratustra (Also Sprach Zaratustra)